AUTISMO E TRANSTORNO DIFUSO DO DESENVOLVIMENTO

O que á autismo?

     Quem nunca ouviu falar o termo autismo? O Transtorno de Espectro Autista representa as pessoas com desenvolvimento anormal da linguagem, interações sociais distorcidas, comportamentos repetitivos e interesses restritos. Caso algum dos critérios anteriores não seja satisfeito, têm-se o Transtorno Disseminado do Desenvolvimento não Especificado. Portanto, são condições semelhantes e, muitas vezes, difíceis de serem diferenciadas. Outro quadro semelhante ao autismo é a Síndrome de  Asperger mas essa não apresenta comprometimento da linguagem. Associa-se a origem dessa gama patológica a herança genética.

Clínica e diagnóstico do autismo

      Em relação a alteração de linguagem, as crianças até conseguem aprender novas palavras. Entretanto, a medida que as novidades vão sendo consolidadas, as antigas vão se perdendo. Ou seja, não se observa uma incrementação do vocabulário. Algo marcante é a relação interpessoal. Os autistas interagem com os outros indivíduos com ausência de sentimentos. Tratam as  pessoas como objetos. Possuem, também, grande dificuldade em adaptar-se a ambientes diferentes. Um fato bem curioso é que muitos portadores de tal patologia desenvolvem habilidades incomuns e fantásticas em certas áreas como cálculo, memória ou atividades artíticas. O diagnóstico é, basicamente, clínico, visto que os exames complementares são inespecíficos. Alguns especialistas sugerem avaliações genéticas e metabólicas. Alguns pontos de tratamento e acompanhamento exigem a realização da Escala Observacional de Diagnóstico de Autismo (ADOS)

     O autismo é uma mazela comportamental. Alguns sugerem vinculo alimentar, onde dietas com restrição de carboidratos, em tese, melhorariam a sintomatologia. Independente da origem, trata-se de uma condição que cada vez mais tem sido diagnosticada e as manifestações clinicas evidentes entre 6 e 18 meses de idade. Mas, sendo uma patologia comportamental, onde exames complementares não são capazes de defini-la, como é feito o diagnóstico?

     Segundo o DSM V  para se definir um quadro de autismo é necessário que o paciente apresente déficit de comunicação e interação social e comportamento restrito e repetitivo. Geralmente, os indivíduos apresentam deficiência intelectual. O padrão restrito é caracterizado por estereotipias, mesmices, interesses restritos, hipo ou hiperatividade. A grosso modo, podemos dizer que um paciente tem autismo embasado nos seguintes critérios:

 

1.   Critério A – Prejuízo persistente de fala e de interação social.

 

2.   Critério B – Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesse ou atividade.

 

Entre as estereotipias mais comuns podemos destacar: 

 

  • Flapping de mãos e movimento pendular do corpo;

  • Alinhamento de brinquedos;

  • Atenção especifica em determinado objeto;

  • Reação exagerada ao som;

  • Pouco contato visual; 

  • Ecolalia.

 

     Como já dito, o diagnóstico é basicamente clinico, devendo ser feito de forma precoce visto que a instituição terapêutica deve ser implementada o mais cedo possível para se obter melhores resultados. O tratamento pode ser iniciado com medidas comportamentais associada a terapia medicamentosa conforme cada caso.

Tratamento do autismo

Tratamento Comportamental:

 

  1. Terapia cognitivo comportamental

 

 2.    Análise do comportamento aplicada (ABA) - ABA é um tratamento baseado em teorias de aprendizagem e condicionamento operante. Inclui alvos de intervenção específicos, juntamente com reforço positivo (elogios verbais, fichas ou recompensas comestíveis) com a repetição de tentativas de aprendizagem  (3). Uma meta-análise examinando a eficácia das intervenções ABA para crianças com autismo mostrou efeitos positivos de médio a grande porte no funcionamento intelectual, desenvolvimento da linguagem, aquisição de habilidades de vida diária e funcionamento social, com efeitos maiores observados na linguagem (4). ABA investiga as interações das pessoas com seu ambiente enquanto desenvolve estratégias de intervenção para diminuir o comportamento inadequado e aumentar as habilidades socialmente apropriadas. A análise do comportamento concentra-se nos princípios que explicam como a aprendizagem ocorre. O reforço positivo é um desses princípios. Quando um comportamento é seguido por algum tipo de recompensa, é mais provável que o comportamento se repita. As crianças que recebem tratamento comportamental intensivo precoce demonstraram ter ganhos substanciais e sustentados em QI, linguagem, desempenho acadêmico e comportamento adaptativo, bem como algumas medidas de comportamento social. Seus resultados foram significativamente melhores do que aqueles de crianças em grupos de controle (6). Desse modo, é aconselhado que autistas realizem ABA.

 

3.   Tratamento e educação para crianças com transtorno do espectro autista (TEACCH) - Se baseia no ambiente para facilitar a compreensão bem como utilizar o meio para individualizar o programa e o perfil psicoeducacional. Uma meta análise avaliou o programa e concluiu que os ganhos comportamentais adaptativos e motores são pequenos (5). Desse modo, trata-se de uma terapia ainda sem respaldo robusto para indicações mais consistentes.

 

Tratamento Medicamentoso:

 

1.   Risperidona (anti psicótico) – Indicada para irritabilidade, agressão, crises de raiva e mudança rápida de humor vistos frequentemente em autistas. A risperidona é prescrita para melhorar os sintomas de autolesão, agressão e agitação e foi efetiva em 70% das crianças e adolescentes em comparação com a taxa de resposta ao placebo de 11,5%. Todavia, também esteve mais associada a efeitos adversos, incluindo aumento do apetite com ganho de peso, sedação transitória, tremor e salivação. Devido a sua ótima resposta clinica é considerada medicamento de primeira linha para crianças e adolescentes que apresentam irritabilidade extrema. 

 

2.   Aripiprazol (anti psicótico que age como agonista parcial de receptores de dopamina e serotonina) - Os estudos que utilizaram o aripiprazol no tratamento de acessos de raiva, agressão e autolesão em crianças e adolescentes com autismo demonstraram que trata-se de uma droga eficaz e seguro. As doses variaram de 5 a 15 mg / kg. Um estudo randomizado de fase III feito no Japão em 2016 conclui que o uso de aripiprazol foi seguro e bem tolerado no tratamento da irritabilidade associada ao TEA (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5617873/). Um ensaio clinico randomizado de 2014 comparou a efetividade do aripiprazol e da riperidona. Ambas as drogas obtiveram efeitos clinicos satisfatórios, com efeitos adversos e efetividade semelhante. Desse modo, o critério de escolha da medicamento deve ser embasado na experiência clinica do medico assistente (14). Em suma, o aripiprazol é uma alteranativa à risperidona.

 

3.    Melatonina - A eficácia da melatonina para distúrbios do sono em crianças e adolescentes com TEA foi examinada em vários estudos duplo-cegos controlados por placebo, tornando-a um dos tratamentos alternativos complementares mais bem estudados usados ​​no TEA. Um pequeno estudo randomizado demonstrou beneficio com o uso de melatonina em pacientes autistas com problemas de sono (15). Um outro ensaio clinico, também pequeno, corroborou com tais achados, concluindo que a melatonina é útil quando existe déficit de sono (16). Portanto, pode ser uma alternativa em autistas com insônia.

 

4.    Canabidiol – Muito se discute hoje sobre o uso do canabidiol em mazelas neurológicas. No autismo, um estudo randomizado com 150 pacientes conclui ser insuficiente os resultados para utilizar tal droga de forma mais generalizada (10). Uma outra meta análise de 2021 compactuou com tais resultados, sugerindo a necessidade de uma investigação mais profunda sobre tal composto para poder indica-lo em casos de autismo (11). Desse modo, ainda não existem evidências capazes de suportar a prescrição de canabidiol para autismo.

Rafael Oliveira - Médico Neurocirurgião e Cirurgia de Coluna

Porto Alegre - RS